Texto publicado na coluna quinzenal da autora, intitulada "Desde os Olhos", no site TremaLiteratura
Autorizado pela mão da mãe que o tranquilizava quanto a ser amor seguro, eis que o menino, pouco a pouco, foi se chegando, farejando a tia com os cílios. Suas reservas eram proporcionais à sua pequena estatura de ano e meio. Mal se moveram os ponteiros, o menino era já um leque de abraços. O rosto da tia se arejava de sorrisos enquanto esvaziava em alta compressão o pente de beijos que lhe pendia da metralhadora dos lábios.
Desconhecedor de viagens e da noção de longe e perto, a tia era para ele uma fantástica aparição. Incrível que da cartola da casa surgisse pela manhã, depois de descartada a incômoda secreção dos olhos, pessoa nova pra cuidar da gente!
Embora até então estranha, a tia era cheia de enternecida atenção para consigo, atenção esta que era ao menininho coisa muito familiar. Lembrava colo de mãe e consolava para quase tudo, menos queda, quando machucava de verdade, e o sono escuro da noite. Os olhos da tia eram bons para confirmar situações de “pode” e “cuidado!” e encorajamentos de “isso mesmo!” e “muito bem!”, sempre que o indicador pousava certeiro sobre a posição do nariz, sobre cujo incerto paradeiro muito se perguntava. Cadê o nariz do neném?
Nisso de ser perguntado sobre o cadê de coisas e pessoas, o menino sinalizou reconhecimento da tia. De primeiro, concedia-lhe a direção cúmplice dos olhos. Depois a mira convicta do indicador. A tia era pessoa presente, habitante de seu aqui-agora. A tia era. A tia estava. Na linguagem do menino, os verbos coincidiam pelo intransitivo da realidade apreendida.
Experimentou chamá-la. O nome da tia ecoou sonoro, desencadeando “Ôôôôô”s e estalos pipoucantes de beijos de artifício. O diálogo então consistia nisso de chamar pela tia e ela, infalivelmente, responder. De cada vez, com redobrada doçura. O nome era, portanto, a substantivação da concretude de haver tia e do alcance de seu abraço. Como a palavra "água" tinha o efeito benfazejo e imediato de fazer minar mamadeiras no deserto das mais intempestivas sedes.
Mas eis que um dia, sem que as lágrimas que marejavam o olhar da tia fossem tomadas por aviso, o menino acordou de um estranho passeio ao aeroporto, de volta à casa de muitos cômodos. Tomou a rota daquele quarto raro, que só existia de vez em quando - o quarto de visitas - aonde a tia acordara dias a fio aos proclames do nome.
Chamou sob os travesseiros. Tapou e destapou reiteradas vezes o esconderijo dos olhos. Chamou pelos corredores, pela escada e a tia não acorreu. Ficou o menino choroso com o nome quebrado nos lábios. Por que é que não funciona?
O chamado, porém, atravessava a distância e desassossegava o coração da tia, que ficou inútil, sem colo e consolo, por não poder embalá-lo nos braços. Como dizer em língua que o menino entendesse que o que não está presente ainda assim existe e nos ama de amor cheiroso e real? No tempo do menino não existe o “até já”. Somente agora é tempo em que se fie. Se pelo menos pudesse dar corpo à saudade...
O menino, que ainda não entendia de abstrações, tratou de calar o nome da tia, como se desaprende aos poucos um jogo que já não se joga. Guardou-o junto às quinquilharias desmanteladas de suas afeições: uma maraca que já não chacoalha, uma chupeta sem borracha, o tiptop preferido, amaciado pelo muito uso, de onde agora lhe escapa o dedão.