Tudo que seduz, abduz, de alguma forma. Leva-nos ao porão da intimidade, para onde descemos de mãos dadas. Abduzem o olhar secreto sobre as reentrâncias do pensamento do outro; o interesse genuíno de legendar o cacoete dos lábios, ou o ritmo da respiração; a intenção de catalogar os sorrisos.
O Carpinejar não é um mestre da escrita. É um mestre do olhar. Ele convida ao ininterrupto voyeurismo sobre as reações do outro, despindo-o. Ele se propõe a pensar sobre cada detalhe, num trabalho minucioso de bordadeira. Tudo ganha o canutilho de seu interesse. A tudo empresta brilho, relevância. É a opulência do olhar.
Alenta saber que existe. A menos que ele seja a mais amoral ficção de si mesmo. Não que seja tudo verdade. No amor, nem é preciso. A verrossimilhança do cuidado já despressuriza a carência, impede sua inflamação de bolha.
Tudo bem, eu me identifico, admito. Para mim, a quem o mundo se dá a conhecer Desde os Olhos, sendo este o título que me encabeça a cognição da vida, minha maneira de entrar em contato. Mas não é uma paixão narcísica, nascida da visitação do espelho. É o encontro com uma profunda sensação de ordem, ao ver consubstanciado meu mais caro dever ser. Ele põe as palavras em ordem, o olhar em ordem, o amor em ordem.
Eu me encanto e emociono com a ordem proposta por ele. Soa-me certo. Como deveria ser. Sim. Eu responderia sim, sem pestanejar, à possibilidade de uma vida vivida nesses termos. Eu mesma já fiz essa proposta. Mandei gravar no avesso da aliança.
Todo olhar amoroso é um pouco um olhar de mãe. Olhar de quem precisa construir a partir de sinais a linguagem do outro. É claro que se corre o risco de inventar o outro no processo. Mas o interesse em traduzi-lo deve manter-se fidedigno, insuscetível a desgastes.
Talvez, toda história de amor comece com essa pergunta implícita: posso ser seu intérprete? Fale comigo, fale através de mim. Escreva as minhas falas. Conduza-me. Sim, porque há a vaidade de ser inventado pelo outro também, de saber que o outro nos empresta toda a beleza do próprio olhar. É um convite para a nudez, em todas as suas formas.
Serás meu guia e eu tua intérprete. Uma mulher cega e um cão fiel.
Que me reinventes o gesto do olhar com as terminações dos pêlos. Que eu nos transcreva as falas, taquigráfica, enciclopédica. Mas nada disso pode durar se a ambos não tocar a curadoria das memórias, esta gravíssima incumbência. Desinteressar os olhos é desincumbir-se covardemente, sem apontar substitutos. Deixar ao outro a vacância do zelo, a opacidade empoeirada do beijo que não se usa mais.
Requer mesmo trabalho árduo, de borralheiro. Amar é lustrar os trincos e atravessar o limiar do espelho.