(Texto escrito em 2005)
Sobre as velhas pegadas, novos caminhos. O viajante, ao viajar, sente-se em casa.
O movimento é sua cadeira de balanço
e a confluência entre a meta e a conquista,
o tapete sobre o qual descansa seus sapatos.
Voltar é revisitar a origem do caminho,
o ponto de partida. Mais do que isso:
convalidar a escolha de partir. Eis que, regressando,
já não há nada atrás de si sobre o que voltar-se.
A vida está à frente e no impulso de seus pés.
Homem e sombra coincidem no marco zero da rosa dos rumos.
O passo seguinte assume o risco de uma direção,
dá-lhe um sentido: o homem ao passo e o passo ao homem.
E porque tudo lhe pareça tão claro
sobrevêm-lhe imagens de coisas encaixando-se:
sandálias aos pés, chaves a fechaduras (metáfora de preencher e libertar),
peças de um quebra-cabeça atraindo-se como ímãs,
espelho quebrando-se ao contrário, refazendo-se,
recompondo a integridade do que fragmentado estava.
Aí está: o ser inteiro. Em seu tamanho real,
é dizer, maior do que muitas coisas,
menor do que outras tantas, mas, sobretudo, à altura
de ser a si mesmo e isso ser sua bravura e sua maior fragilidade.
Pertencer pressupõe a qualidade dos fortes. Precisar é que não.
Precisar é querer para si, enquanto pertencer
é querer ser de outrem e aplicar-se, enquanto movimento,
a uma outra vida. A mão estendida, ao precisar, suplica.
Ao pertencer, desprende-se, oferece de si a sua palma:
entrega-se. O sentimento de pertencer consuma-se
com esse transbordamento mesmo, e independe (enquanto realidade)
da recepção do outro. Se sinto-me tua e o digo
é por fidelidade à verdade minha, por retidão
de restituir a ti o que te pertence e de mim transborda.
É todo teu. Eu, toda minha. Já não meço forças com a solidão,
nem pretendo sobre o amor prevalecer. Minha força se distende.
Assim, o que à força imóvel estava, projeta-se,
ganha impulso, descomprime-se. Fica-me o coração, assim,
em pulsante repouso - vivo e em paz.
Ou antes, sereno e em paz porque pulsante e vivo.