Mostrando postagens com marcador Para eu parar de me doer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Para eu parar de me doer. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pertencimento

(Texto escrito em 2005)
Sobre as velhas pegadas, novos caminhos.  
O viajante, ao viajar, sente-se em casa.
O movimento é sua cadeira de balanço 
e a confluência entre a meta e a conquista,
o tapete sobre o qual descansa seus sapatos.

Voltar é revisitar a origem do caminho, 
o ponto de partida. Mais do que isso: 
convalidar a escolha de partir. Eis que, regressando, 
já não há nada atrás de si sobre o que voltar-se.
A vida está à frente e no impulso de seus pés.

Homem e sombra coincidem no marco zero da rosa dos rumos.
O passo seguinte assume o risco de uma direção, 
dá-lhe um sentido: o homem ao passo e o passo ao homem.
E porque tudo lhe pareça tão claro 
sobrevêm-lhe imagens de coisas encaixando-se:
sandálias aos pés, chaves a fechaduras (metáfora de preencher e libertar),
peças de um quebra-cabeça atraindo-se como ímãs, 
espelho quebrando-se ao contrário, refazendo-se,
recompondo a integridade do que fragmentado estava.

Aí está: o ser inteiro. Em seu tamanho real, 
é dizer, maior do que muitas coisas, 
menor do que outras tantas, mas, sobretudo, à altura 
de ser a si mesmo e isso ser sua bravura e sua maior fragilidade. 
Pertencer pressupõe a qualidade dos fortes. Precisar é que não. 
Precisar é querer para si, enquanto pertencer 
é querer ser de outrem e aplicar-se, enquanto movimento, 
a uma outra vida. A mão estendida, ao precisar, suplica.
Ao pertencer, desprende-se, oferece de si a sua palma:
entrega-se. O sentimento de pertencer consuma-se 
com esse transbordamento mesmo, e independe (enquanto realidade) 
da recepção do outro.  Se sinto-me tua e o digo 
é por fidelidade à verdade minha, por retidão 
de restituir a ti o que te pertence e de mim transborda. 
É todo teu. Eu, toda minha. Já não meço forças com a solidão, 
nem pretendo sobre o amor prevalecer. Minha força se distende. 
Assim, o que à força imóvel estava, projeta-se, 
ganha impulso, descomprime-se. Fica-me o coração, assim, 
em pulsante repouso - vivo e em paz.
Ou antes, sereno e em paz porque pulsante e vivo.

domingo, 3 de julho de 2011

Germiniscências

Texto postado originalmente no blog Para eu Parar de me Doer

Saiu da loja de perfumes, aproximando suavemente o pulso do nariz, para sentir-lhe a fragrância. A mão pendia-lhe oblíqua, com as costas voltadas para fora, como na pausa coreográfica de uma bailarina, revestindo de elegância o distraído gesto. Sim, havia qualquer coisa nela que dançava! Seu caminhar tinha a leveza volante de um invisível voil, vinham e iam as ancas em balanço pendular, cadenciadas.

Seria a mulher a rosa que se cheira? - brincou-lhe o pensamento a propósito da estampa floral que vestia. Tudo nela exalava um aroma frutado de flor fecunda, doce, doce, olhos dulcíssimos, rebrilhando úmidos como o vértice de um hibisco. Apertou o ventre com as mãos em concha, como a proteger um enigma e atravessou a rua, o sinal ainda aberto aos carros, em atitude desafiadora, só para vê-los curvarem-se sob o comando de uma súbita frenagem à altivez da vida.

Gostou da idéia de que as coisas em volta dela, a partir de então, desacelerassem. Havia mesmo mais silêncio, como quando cai a neve e suprime-se o barulho dos passos.

Deixou-se tomar pela visão íntima de uma paisagem toda branca, a que associava, paradoxalmente, um calor de Glühwein, bebido em pequenos goles - o vinho que se serve quente e condimentado nas festividades teutônicas do Advento. E lá se se iam muitos anos desde que voltara de lá. 
 
A invocação inebriante do cheiro macerado de cravo, uva e anis, levou-a a fechar os olhos, inalando gulosamente o ar até o limite dos pulmões, retendo um pouco a respiração, como a perscrutar vestígios das notas exóticas do aroma dentro de si.

Levada pela correnteza das associações sinestésicas, sintetizava em sinapses rápidas experiências diversas, sensoriais ou não, se resultantes do intelecto.

E tinha ainda a sugestividade da palavra “Advento”, cujo conceito fulminara-lhe sob uma conotação inteiramente nova...

Os parênteses se abriam em sua mente com o poder de multiplicação de bonequinhas russas, as memórias saindo umas de dentro das outras, em uma infinita cadeia remissiva, um fio contínuo de histórias que era, no fim das contas, o que lhe arrematava a tessitura do ser.

Munia-se, inconscientemente, de referências, tantas quantas possíveis, sobre o processo de viver: suas sensações, suas razões, suas implicações, seu sentido.

Mais do que nunca precisava entrar em contato com a natureza das coisas, sistematizar o precário saber, como o pássaro laborioso a construir com fragmentos a dimensão imaterial do ninho, pois suspeitava estar incumbida de transmitir, mais do que a realidade do corpo ao que se lhe formava dentro, um modo de estar no mundo, de relacionar-se com ele.

...Os que julgam que a criação é forma apenas de forjar a criatura, desconhecem a carga transformadora do ato de criar, donde o próprio criador se origina. Origens...Origem. A palavra escancarou-se como a boca de uma baleia, tragando-a para dentro. 
 
A lucidez nela aguçou as retinas, tentando recuperar a nitidez dos contornos ao adentrar o escuro mistério.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Vegetativo

O dia gastou-me até o caroço de mim. O tempo e suas mandíbulas de ponteiros roeram-me ainda o hermético núcleo, empurrando-me contra o duro palato, para, então, girar-me contra a língua espessa das horas à cata de alguma sobra nas reentrâncias. Julgando que me esgotara, deitou-me fora, farejando os restos com o desdém dos cães às tigelas vazias.

...Mas o caroço é a astúcia das coisas, resguardando-se...

Partisse-me o grão, aí sim, mordia-me em cheio o ser. Na porção-grão irredutível de mim, germino a lenta reinvenção da força. Afinal, a palavra de ordem de toda semente é vingar.