terça-feira, 15 de março de 2011

Reptilia

Quando morávamos em Jaguaruana, interior do interior do interior do Ceará, meu pai tinha a delicadeza de guardar os pequenos ovos, encontrados no chão do quintal poeirento da nossa casa, no bolso do paletó. Pendurava no guarda-roupa aquela inquietante latência.

Conferia o status da gestação diariamente, examinando os ovos como ultrassonografias na contraluz. Quando a casca começava a rachar, levava-os de volta ao quintal. E, acocorados em volta deles, esperávamos.

Eram cobras que, invariavelmente, eclodiam dos pequenos ovos. Mas meu pai, juiz consciencioso, não queria correr o risco de matar passarinhos inocentes.

Aos filhotes de cobra executava objetiva e eficientemente, como os que apenas cumprem sentenças, dispensados de fazer juízos de valor. As cobras já nasciam biblicamente culpadas.

Um dia, a pequena cidade acordou em polvorosa. Mataram! Mataram a D. Lalinha! No dia do júri, o marido, réu confesso, explicou que a esfaqueou repetidas vezes, nos olhos e na garganta, para que ela aprendesse a não ficar por aí, dando desfrutes com forasteiros.

No processo, ficou comprovado que o forasteiro havia batido respeitosamente à porta  de D. Lalinha, cumprindo os costumeiros "ô de casa", para pedir um copo d'água e assuntar quando acaso saía o próximo ônibus daquele cidade-beco, sem-saída.

O marido chegou do trabalho e viu o tal forasteiro se afastando de sua casa, a mulher debruçada à janela, acenando com um sorriso.

Condenado por homicídio qualificado, o marido não demonstrava remorso. O que é que queriam que ele pensasse?

Aprovar, não aprovavam. Mas, estranhamente, parece que o compreendiam. Ali, as mulheres, assim como as cobras, também nasciam biblicamente culpadas.